Flashes Corbetura Carnatal 2011 – Quarteto da Folia

Nem a política, sempre tão controversa, foi capaz de quebrar o diálogo entre os quatro sócios da Destaque Promoções, proprietária do Carnatal e fundada há 24 anos por Roberto e Ricardo Bezerra, Gustavo Carvalho e Paulinho Freire. Os dois últimos tornaram-se deputado estadual e vice-prefeito de Natal respectivamente, e, diga-se de passagem, em partidos diferentes, mas até hoje cumprem uma promessa: ninguém fala em política dentro da sala de reunião da Destaque. Hoje, com o Carnatal completando 21 anos e em formato menor por causa da construção da Arena das Dunas, os empresários contam o segredo do sucesso da parceria.

Para Roberto Bezerra, responsável pela área de marketing da Destaque, o segredo é o diálogo. “Eu diria que é parecido com o relacionamento de marido e mulher: você não pode perder o diálogo. A gente já brigou, passou meses sem se falar, mas o diálogo nunca deixou de existir na hora de falar da empresa”, acredita.

Ricardo Bezerra, por sua vez, diz que o segredo do sucesso está ligado ao futebol: todos são americanos. “O bom gosto futebolístico também ajuda muito”, brinca. Para Paulinho Freire e Gustavo Carvalho, a chave de tudo é a confiança. “A gente confia muito um no outro e tem o trabalho também. Ninguém aqui veio de família rica. A gente cresceu trabalhando, um ajudando ao outro”, lembra Freire.

Outra regra estabelecida entre os sócios desde 1987, quando abriram a Destaque, é que sempre que existe uma posição divergente, eles fazem uma votação entre os quatro. “A maioria é soberana sempre. Alguém pode não concordar, mas participa”, diz Gustavo Carvalho. Por isso mesmo que as mudanças com a demolição do Machadão e os impactos no Carnatal – que perdeu seu carro-chefe, o corredor da folia – não geraram polêmica entre os sócios. Segundo o deputado estadual, todos encararam com a maior naturalidade as mudanças impostas pela nova realidade vivida pela capital.

“Encaramos com naturalidade porque sabemos que a cidade e o estado vão ganhar com isso. Sabemos que no futuro vamos ter um evento muito maior do que temos hoje, porque acreditamos que aquela praça vai se transformar numa grande praça de eventos urbanizada”, aposta Carvalho. Paulinho Freire, que faz o meio de campo entre a Destaque e a Prefeitura, diz que defende a Copa e o Carnatal, mas se tivesse que escolher, sem dúvidas daria prioridade às obras de mobilidade urbana.

“Jamais poderíamos ser contra. Poderíamos comprometer o evento ou até não fazê-lo, mas Natal não pode perder esse momento que é ímpar para a cidade. O Carnatal poderia até não existir durante três ou quatro anos, mas a gente jamais seria contra qualquer realização da Copa aqui. Conseguimos conciliar e vamos fazer o evento, um pouco menor, mas vai ser muito bom”, atesta.

Mesmo com duas décadas de tradição e sendo um evento já consolidado no calendário potiguar e brasileiro, Paulinho diz que os empresários ainda enfrentam dificuldades para realizar o Carnatal. Cada ano que passa parece que o negócio fica mais complicado. “É uma festa que nos dá muito prazer porque a gente sabe que hoje é a festa da cidade. Os natalenses compraram a ideia porque Natal não tinha um grande evento e o Carnatal passou a ser essa referência. Mas é claro que as dificuldades são muitas, porque não é fácil fazer uma festa na rua”, emenda.

Paulinho e Gustavo em lados opostos

Paulinho Freire diz que sempre esteve ligado à política, desde a época em que presidiu o grêmio estudantil no Colégio Marista. Candidatou-se a vereador em 1988, obteve exatamente mil votos, mas não foi suficiente para se eleger. Os amigos incentivaram, tentou novamente em 1992 e logrou êxito. Foi vereador por dez anos e presidiu a Câmara Municipal por seis. Elegeu-se deputado estadual em 2002, mas, quatro anos depois, não quis tentar novamente. Era a vez do amigo e sócio Gustavo Carvalho se candidatar a uma vaga na Assembleia Legislativa.

Recentemente, depois de muito relutar, Paulinho aceitou o convite de Micarla de Sousa para disputar (e vencer) a eleição majoritária como candidato a vice-prefeito. E Gustavo já está no segundo mandato como deputado. Mas como conciliar a carreira política com uma empresa tão dinâmica como a Destaque? “Não é fácil conciliar, mas a gente tenta dobrar nosso tempo”, diz Carvalho. Nos dias que antecedem o Carnatal, os quatro sócios costumam se reunir todos os dias, e, dependendo da demanda, mais de uma vez por dia. O mais difícil é conseguir bater os horários de Gustavo e Paulinho. Este, por sua vez, diz que quem faz o trabalho pesado são os irmãos Roberto e Ricardo.

“Execução e gerenciamento é com eles. Participamos mais das reuniões dando opiniões”, diz. Em outras épocas do ano, eles se reúnem pelo menos uma vez por semana. Até a reportagem do NOVO JORNAL encontrou dificuldades para conseguir reunir os quatro para a entrevista e fotos da matéria durante esta semana. Na opinião de Roberto Bezerra, a política e os caminhos que cada um dos sócios seguiu nessa área poderiam, sim, ter quebrado o diálogo entre os empresários. Mas a amizade prevaleceu. “Eles estão em partidos diferentes e já apoiaram candidatos diferentes em eleições passadas. Isso poderia ter dado ma briga séria, mas mesmo com essas divergências políticas, a gente nunca deixou de se encontrar aqui uma vez por semana. E quando eles chegam aqui é uma regra: ninguém conversa sobre política. Foi assim que conseguimos manter o diálogo até hoje”, acrescenta.

Como a festa começou

Era 1989 e Paulinho Freire e Ricardo Bezerra estavam em Salvador fechando um contrato com a banda Chiclete com Banana. A ideia era que a banda fizesse 18 shows pela região Nordeste, que iriam do Maranhão até Sergipe. Até que o empresário do Chiclete, citado pelos sócios apenas como Jairo, os convidou para conhecer o carnaval fora de época de Feira de Santana, que os baianos chamavam de “micareta”. “Ao chegarmos lá, vimos que aquela festa daria certo em qualquer lugar, principalmente em Natal, uma cidade turística, onde o povo adora festa”, lembra Ricardo.Os quatro sócios passaram três anos planejando como seria o Carnatal. “Sabíamos que o primeiro ano ia ser difícil porque precisávamos mostrar a festa para a cidade, para que ela pudesse entender como era a festa de verdade”, lembra Paulinho Freire.

O primeiro Carnatal aconteceu em 1991, em um percurso que saía da Praça Cívica e ia até a Rua Apodi. Contava com apenas três blocos: Caju com Sal, Bikoka e Enxame de Gente. No segundo ano, os blocos passavam pela Avenida Afonso Pena e voltavam pela Rua Trairi, até chegar à Praça Cívica. Foi somente no quarto ano que a festa se mudou para o entorno do Machadão. Ricardo Bezerra lembra como foi no início. Assim que formataram a ideia da festa, chamaram amigos que trabalhavam com eventos para serem parceiros e montarem os blocos. Entre eles estava Cláudio Porpino, que até hoje é dono do Caju, e o empresário Sérgio “Coxinha”. “O engraçado era que os blocos tinham a rivalidade entre eles, mas a gente era sócio de todos, não podia fazer nada”, lembra aos risos.

A ciumeira ficou ainda mais acirrada quando, no primeiro ano de Carnatal, Porpino abriu seu Chevette vermelho cheio de abadás do Caju que haviam sobrado e distribuiu entre os amigos. “As vendas não foram decepcionantes, mas também não foram um sucesso. Então Cláudio Porpino marcou com os comissários do bloco e vários amigos para pegarem os abadás que tinham sobrado para eles irem conhecer o Caju. O bloco acabou sendo o mais animado da festa por causa disso. Os donos dos outros blocos ficaram chateados, mas não tinha nada que a gente pudesse fazer. A cena foi muito engraçada”, lembra.

Nessa época o Caju saiu com a banda Cheiro de Amor, o Bikoka com Netinho e o Enxame de Gente com a Banda Mel. Foi uma surpresa para os organizadores ver a Praça Cívica tomada por uma multidão de gente. “Grande surpresa foi quando a gente entrou na Praça Pedro Velho e viu aquela multidão. Todos percebemos que tínhamos feito algo bem maior do que havíamos imaginado. A ideia havia sido comprada pela população e a razão maior disso era que Natal não tinha mais seu Carnaval”, argumenta Ricardo.Conforme ele conta, no final da década de 1980 o Carnaval da cidade havia migrado para as praias. No entanto, esses locais não dispunham de infraestrutura adequada para receber tamanha quantidade de gente. Em Barra de Maxaranguape, cita Bezerra, chegou a faltar água.

Foi de olho nessa lacuna que a Destaque decidiu investir no Carnatal, na esteira do sucesso de grandes festas como o São João de Campina Grande (PB), Caruaru (PE) e do Carnaval de Recife e Olinda. “Natal sentia carência de um grande evento e foi um dos motivos que vimos que aqui cabia o Carnatal. A cidade já vinha com um desenvolvimento grande na estrutura turística, com hotéis e restaurantes, principalmente na Via Costeira. E essas cidades, que não tinham essa estrutura, já possuíam grandes eventos”, acrescenta Ricardo.

Novo Jornal

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Sobre Thiago Ferreira

Estudante da Escola Austríaca de Economia, é comentarista político e corresponde em Natal - Rio Grande do Norte.

Publicado em dezembro 4, 2011, em NRTV A posta!, SBT e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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